O ato de soltar gases intestinais é uma função biológica essencial e muito mais frequente do que a maioria das pessoas imagina. Um estudo recente conduzido pela Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, trouxe dados surpreendentes que desafiam o que a literatura médica pregava há décadas sobre o funcionamento do nosso sistema digestivo.
Até pouco tempo, acreditava-se que um adulto saudável liberava gases cerca de 14 vezes ao dia. No entanto, a nova pesquisa liderada pelo doutor Brantley Hall, professor de biologia celular e genética molecular, revelou que a média real está em torno de 32 vezes por dia. Essa descoberta muda a forma como entendemos a saúde do microbioma intestinal.
A tecnologia por trás da descoberta
Para chegar a esses números, os cientistas não confiaram apenas em relatos dos pacientes, que costumam ser imprecisos por causa do constrangimento ou esquecimento. A equipe desenvolveu uma roupa íntima inteligente equipada com sensores de alta tecnologia. Esse dispositivo consegue detectar hidrogênio e outros gases em tempo real durante o dia e a noite.
O uso dessa tecnologia permitiu monitorar 38 adultos saudáveis em suas rotinas normais. Os resultados mostraram uma variação individual impressionante. Enquanto alguns participantes liberavam gases apenas 4 vezes, outros chegavam a 59 vezes em um único período de 24 horas, mostrando que a normalidade é um espectro amplo.
Por que produzimos tantos gases
De acordo com a gastroenterologista Supriya Rao, que analisou os dados do estudo, a produção de gases ocorre por dois motivos principais. O primeiro é o ar que engolimos ao comer rápido, mascar chicletes ou beber bebidas gaseificadas. Esse ar viaja pelo trato digestivo e precisa ser expelido de alguma forma.
A segunda causa, e talvez a mais importante, é a fermentação bacteriana. Quando comemos alimentos ricos em fibras ou certos açúcares, as bactérias do nosso intestino trabalham para decompor o que não foi digerido no intestino delgado. Esse processo gera subprodutos como metano e dióxido de carbono.
O que o excesso de gases pode indicar
Acompanhar a frequência e o tipo de gás produzido não é apenas uma curiosidade, mas uma ferramenta de diagnóstico. O doutor Brantley Hall explica que altos níveis de metano podem indicar um trânsito intestinal mais lento e quadros de constipação. Já o excesso de hidrogênio pode ser um sinal de intolerância à lactose.
Monitorar esses sinais ajuda a entender como o microbioma está reagindo à dieta. O estudo destaca que o cheiro forte, apesar de desagradável, raramente é sinal de algo grave. Geralmente, o odor reflete apenas o tipo de alimento ingerido e como as bactérias estão processando as proteínas e carboidratos.
Quando buscar ajuda médica
Embora soltar muitos gases seja normal, é preciso ficar atento a sinais de alerta que acompanham a flatulência. Se o aumento dos gases vier acompanhado de diarreia crônica, inchaço abdominal severo ou dor persistente, a recomendação é procurar um especialista. O corpo usa os gases para se comunicar e entender esse padrão é vital.
A pesquisa continua com o projeto Human Flatus Atlas, que pretende mapear o comportamento intestinal de centenas de pessoas. O objetivo é descobrir por que alguns indivíduos, chamados de zen digesters, conseguem processar dietas ricas em fibras produzindo quase nenhum gás, enquanto outros são naturalmente mais gasosos.
